Já ouviu falar em sapeada? Atividade leva visitantes para observar anfíbios na natureza
Matheus T. Moroti
Entrar na mata durante a noite para procurar sapos, pererecas e rãs pode parecer uma proposta inusitada. Mas esse é justamente o objetivo das chamadas sapeadas: caminhadas noturnas dedicadas à observação de anfíbios e répteis em seu ambiente natural.
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Inspirada no tradicional birdwatching — a observação de aves —, a atividade ainda é pouco conhecida no Brasil, mas vem conquistando turistas, fotógrafos, pesquisadores e amantes da natureza. Mais do que um passeio, as sapeadas também se tornaram uma ferramenta de educação ambiental, ciência cidadã e conservação da biodiversidade.
“Não é necessário ser especialista, basta ter interesse e respeito pelo ambiente”, afirma a bióloga Gabriela Rodrigues França, cofundadora da Una Ecoturismo, empresa especializada em turismo de observação da vida silvestre na Serra da Mantiqueira. Segundo ela, as saídas são abertas ao público, sem restrições de perfil.
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Floresta diferente
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Matheus T. Moroti
Quem participa de uma sapeada descobre rapidamente que a mata muda completamente depois que o sol se põe.
Os animais diurnos se recolhem, enquanto as espécies noturnas passam a ocupar o ambiente, seja pela presença, seja pelos sons que produzem.
É nesse período que boa parte dos anfíbios fica mais ativa, principalmente durante a reprodução. Com lanternas e acompanhados por guias, os participantes percorrem trilhas observando os animais sem interferir em seu comportamento.
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A proposta é justamente desacelerar e prestar atenção em uma fauna que normalmente passa despercebida.
Cercados por mitos, sapos e pererecas ainda despertam medo em muitas pessoas. Para Marcelo Fonseca, especialista em conservação da biodiversidade da PUC-PR e sócio da Una Ecoturismo, o contato direto com esses animais costuma desconstruir essa imagem.
“O sapo mais conhecido pelo público é o sapo-cururu, grande, com verrugas e cercado de mitos. Mas, quando as pessoas entram na floresta, descobrem que o Brasil tem a maior diversidade de anfíbios do mundo, com espécies de todas as cores, tamanhos e formas. Isso faz com que elas repensem completamente a ideia que tinham.”
Segundo ele, essa transformação é comum.
“Já tivemos casos de pessoas com medo que participaram e saíram com uma visão completamente transformada”, completa.
Além do turismo
Além de atrair turistas e proporcionar uma experiência de contato com a natureza, as sapeadas também têm importância para a ciência.
Durante as atividades realizadas em São Francisco Xavier (SP), os participantes fotografaram os animais encontrados e compartilharam os registros em plataformas de ciência cidadã, como o iNaturalist. Depois de identificadas por especialistas, essas observações passam a integrar bancos internacionais utilizados em pesquisas sobre biodiversidade.
Já ouviu falar em sapeada? Atividade leva visitantes para observar anfíbios na natureza
Matheus T. Moroti
Entre outubro de 2023 e dezembro de 2025, foram realizadas 14 sapeadas na região, reunindo mais de 60 participantes. Nesse período, foram registradas 31 espécies — 29 anfíbios e dois répteis — em um total de 158 observações. Cerca de 60% desses registros alcançaram nível científico e passaram a compor bases internacionais de dados.
Para o pesquisador Thiago da Silva Novato, biólogo e pesquisador da Esalq-USP, esse é um dos maiores potenciais da atividade.
“As sapeadas podem contribuir para o monitoramento das espécies, o conhecimento de sua distribuição geográfica e de sua história natural, além de alertar para mudanças nos períodos reprodutivos, redução da abundância, surgimento de doenças ou alterações nos ambientes ocupados pelos anfíbios.”
Segundo ele, a expectativa é que a atividade se torne tão consolidada quanto a observação de aves, que hoje já desempenha um papel importante na produção de conhecimento científico.
Descobertas
Desde janeiro de 2025, o potencial científico das sapeadas ficou ainda mais evidente.
Durante uma caminhada noturna, guias e uma ecoturista encontraram, pela primeira vez na Serra da Mantiqueira, uma pequena perereca do gênero *Fritziana*, conhecida como perereca-marsupial. O registro foi o primeiro para a Área de Proteção Ambiental de São Francisco Xavier e para o município de São José dos Campos.
O animal chama atenção por uma característica incomum: a fêmea carrega os ovos em uma bolsa formada por pregas de pele nas costas, semelhante ao marsúpio dos cangurus. Depois, deposita os girinos em bromélias ou cavidades de bambu com água, onde eles completam o desenvolvimento.
Já ouviu falar em sapeada? Atividade leva visitantes para observar anfíbios na natureza
Matheus T. Moroti
Segundo Matheus T. Moroti, pesquisador da Unicamp e do Museo Nacional de Ciencias Naturales de Madrid e um dos precursores da atividade junto à Una Ecoturismo, a descoberta ainda pode revelar algo maior.
“Atualmente, estou liderando a pesquisa que busca identificar quem é essa espécie. Ela está passando por sequenciamento molecular utilizando DNA para comparação com outras espécies do gênero.”
Os primeiros resultados animam a equipe. Os indícios iniciais mostram que pode se tratar de uma nova espécie.
Orientações e conservação
Os pesquisadores do projeto destacam que as sapeadas só cumprem seu papel na conservação porque seguem protocolos para reduzir ao máximo os impactos sobre os animais.
Entre as recomendações estão evitar o manuseio dos anfíbios, caminhar em grupos pequenos, higienizar os calçados entre diferentes áreas para impedir a disseminação de doenças e preservar os micro-habitats onde as espécies vivem.
Já ouviu falar em sapeada? Atividade leva visitantes para observar anfíbios na natureza
Matheus T. Moroti
“Os sapos são considerados os vertebrados terrestres mais ameaçados do planeta”, explica Milena Nogueira Carvalho Dias, mestranda em Ecologia na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e sócia da Una Ecoturismo.
“Nosso artigo foi um convite para que a comunidade herpetológica — que estuda anfíbios e répteis — pense e adapte estratégias de observação que minimizem os impactos ao máximo.”
Ao aproximar moradores e visitantes desses animais, as sapeadas mostram que sapos e pererecas são muito mais do que personagens de mitos populares. Eles são peças fundamentais dos ecossistemas e podem conduzir a novas descobertas científicas.
*Sob supervisão de Rodrigo Peronti.
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Fonte: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/07/23/ja-ouviu-falar-em-sapeada-atividade-leva-visitantes-para-observar-anfibios-na-natureza.ghtml
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